segunda-feira, 24 de maio de 2010

The End

Lost para mim terminou exatamente como começou.
Sem eu entender nada.
Sério. Não é piadinha barata não.
Terminei de assistir aos seis anos da série de madrugada, lá pelas cinco e meia da manhã [uma volta aos tempos pré-streaming quando esperávamos os torrents].
E assim, como desde o início, sem entender exatamente o que tinha assistido, fui para a World Wide Web [nunca nos esqueçamos o que esse nome representa] buscar aquilo que sozinha eu não conseguia entender.
E foi na rede que encontrei as respostas, joguei outras fora, fiz as minhas escolhas.
E sempre foi assim.

Lost foi meu portal durante seis anos.
De 2004 a 2010 vi o mundo [da comunicação] mudar do meu ponto-de-observação preferido.
Dentro dele.
Lugar que convencionei chamar o-olho-do-furacão.
Dimensão em que vivo como usuária, a Guta.

Costumo falar dos seis anos de Lost mas assisti à série durante cinco.
Lost foi lançada em 22 de setembro de 2004.
Não soube, não ouvi falar, não me conectei.
Só quando ela chegou ao Brasil - no cabo - é que comecei a ler algo aqui, outro acolá.
Não tive curiosidade.
Um dia, em 2005, jantando com duas amigas, @lustein e @nandinascimento, fui mordida.
As duas não paravam de falar sobre o seriado.
Eu não sabia o que era direito - achava que era só a história de uns sobreviventes de um desastre de avião - mas uma frase trocada entre elas me chamou atenção.
- Será que eles estão mortos?
Foi assim que nasceu meu interesse por Lost.
Exatamente a mesma pergunta que me fiz até o último frame do último dia - tantos anos depois.

Em 2005, eu ainda não sabia, mas já era uma Guta on demand.
A ideia de assistir a algo na TV, com horário pré-estabelecido, e dividido aos pedaços por comerciais [a maioria] horrorosos, me embrulhava o estômago.
Eu queria assistir a Lost - mas em DVD.
Em setembro daquele ano [2005] tinha sido lançada nos EUA a caixa da primeira temporada.
Pedi ajuda ao @SERGIO_DAVILA, colega querido de SBT Brasil, e numa de suas idas-e-vindas dos EUA ele me trouxe a caixa.
Lembro que esperei uma sexta-feira à noite, tarde, para começar.
A ideia era ver só um capítulo [antes de se chamar episódio era assim que a gente chamava, 'capítulo' - herança das novelas].
Eu tinha ponte aérea marcada no dia seguinte e precisava chegar cedo ao aeroporto.
Rá.
Eu ainda não sabia.
Mas começavam ali minhas batalhas de sono contra Lost.
A ilha me seduziu de primeira.
Como muita gente, assisti acho que a uns QUATRO episódios seguidos.
E, a contra-gosto, fui dormir querendo ver mais.
No dia seguinte, no avião, surgiu minha primeira regra Lostie, divulgada em prosa & verso.
Jamais assista ao episódio-piloto e voe no dia seguinte.
Foi uma viagem engraçada aquela.

Consumidos os episódios, parti para os extras.
Tudo ali sobre a produção me interessava.
Adorei saber que o piloto havia sido, até então, o episódio de estreia mais caro da TV americana.
As dificuldades da produção, a carcaça comprada num cemitério de aviões, o frete para o Hawaii, a autorização que não chegava.
Eu ainda não sabia mas começava ali um novo olhar meu sobre os seriados.
Além das personagens e suas histórias, passei a querer saber mais sobre quem produzia, quanto custava, como era feito.

Quanta coisa eu ainda não sabia contida numa caixa de DVDs.
Os extras me apresentaram à Michael Giacchino, o produtor musical da série.
E eu fiquei pasma ao saber que o áudio da vinheta era feito com metais retirados da carcaça real de um avião.
E não que eu fique por aí botando timbre de lata em tudo que edito - rs - mas começava ali um outro jeito de eu pensar na sonorização dos meus trabalhos.
Se hoje, eu não só presto muito mais atenção aos 'barulhos' de um filme, como leio com o maior prazer o livro de um editor de áudio e imagem, Walter Murch, acho que devo isso à Lost.

Devorada a caixa, eu ainda não sabia - rs - começava uma nova obsessão.
Não tinha como ficar esperando uma nova caixa de DVDs, sabia lá Deus quanto tempo depois a ser lançada.
Eu precisava desesperadamente saber como estavam meus castaways na segunda temporada.
Como quem tem amigos tem tudo - e eu tinha o super Piri - foi fácil.
Quer dizer, fácil não foi.
Eu tinha que alugar o Piri - amigo & anjo-da-guarda-digital - para ele baixar os epis pra mim.
Ele pacientemente queimava os DVDs.
E eu lá ansiosa a cada lote.
Era fim de 2005, eu já tinha comprado meu primeiro MacBook e o Piri, provavelmente exausto de tanto baixar episódio pra mim, me apresentou ao Tomato Torrent.
E ao ThePirateBay.Org
Foi com Lost que aprendi a baixar episódios na internet.

Aí o mundo já era outro.
Lost já tinha um universo próprio de fãs exasperados vivendo uma realidade alternativa e/ou/não paralela. Rs.
E eu fazia parte dela.
Meu status no MSN passou a ser os famosos 4-8-15-16-23-42.
Alguns amigos curiosos perguntavam o que eram os números.
Outros já sabiam.
E ao meu redor eu via cada vez mais pessoas entrando para aquele universo.
Emprestava os DVDs, evitava spoilers pra eles, ia cuidando com o maior carinho de quem ia chegando.
Éramos cada vez mais.
E eu cada vez querendo saber mais.
Os fóruns, os sites, já não bastavam.
Passei a ler livros sobre a produção de Lost.
E quanto mais eu lia, mais passava a entrar no mundo dos roteiristas, as pessoas que escreviam Lost.
Eu ainda não sabia mas começava ali uma maneira diferente de assistir às séries.
Numa realidade eu acompanhava a história em si.
Na outra, os bastidores.
Como se criava um seriado, como se dividiam os episódios, os ganchos, os arcos, a pressão da audiência, a pressão das emissoras, as censuras, as dificuldades de produção, as brigas do elenco por vaidade e dinheiro.
Isso nasceu em mim com Lost e me levou para várias outras séries.
Hoje em dia se eu frequento os fóruns dos roteiristas dos seriados e assisto a filmes e episódios com olhos de roteirista, devo a J.J.Abrams, a @DamonLindelof e a @Carlton Cuse.

Em 2006, o mundo já era pra lá de outro.
E eu já via Lost com outros olhos, muito diferentes daqueles com os quais começara um ano antes.
Na realidade da ilha, Jack já não era mais meu ídolo.
Rompi com ele ainda na primeira temporada [exibida nos EUA em 2004] quando ele e Sayid torturaram Sawyer por causa do remédio de asma da Shannon.
Três anos pós 9/11 todo mundo achou muito normal tortura em TV aberta.
Eu não.
Tenho tamanho horror à tortura que me incomodou - e muito - meu herói favorito torturar alguém.
Era sinal dos tempos.
Reflexo de um mundo assustado e covarde.
Mas eu empre me recusei a compactuar com isso.
Herói meu não tortura [deve ser por isso que nunca mergulhei em Jack Bauer].
Eu ainda não sabia mas começava ali a romper meu olhar de meramente espectadora.
Com Lost passei a acompanhar séries que me desagradavam, com heróis com os quais eu não concordava, pelo simples fato de que já não era mais apenas a história que me interessava.
Concordando ou não, eu queria saber como os roteiristas iam se virar para fazer tudo aquilo terminar.
Seria o fim da adolescência?

No campo amoroso, até então eu sempre tinha sido Jater.
Ver Kate e Swayer flertando me embrulhava o estômago.
E para piorar minha situação de Jater, meu roteirista favorito [ubberJater] tinha sido 'saído' da série por resistir à censura que a ABC impôs a partir do nono episódio da primeira temporada.
Com medo de que Lost ficasse tachada de 'sci-fi' [e isso derrubasse as vendas no mercado internacional que trata o sci-fi como nicho específico], a ABC meteu a mão na série.
Lost tinha que ser um produto para todos os nichos e a emissora obrigou os produtores a investir mais no lado humano e menos no mood 'Arquivo X'.
Confesso que isso não me abalou tanto quanto o crescimento dos Skaters.
Mesmo com raiva do Doc, eu adorava ver Jack e Kate juntos.
E - eu ainda não sabia. rs. - mas o primeiro beijo dos dois me levou a outro universo.
O das fanfics.
De tanto ver a re-edição da cena feita pelos fãs, acabei entendendo uma coisa que até então eu - profissionalmente - não tinha percebido.
Todo adolescente era um editor.
Segundo @bringthecat, amiga do twitter, fanfics não nasceram com Lost.
Parece que já existiam em Arquivo X e/ou outras séries.
Mas eu não conhecia.
Devo a Lost.

Foram tantos os portais abertos para mim por Lost que, com certeza, vou esquecer de alguns.
Mas foi graças a Lost que passei a interagir mais nas comunidades do Orkut.
Graças a Lost criei meu primeiro fake e aprendi como 'causar' nas comunidades com ele.
Foi numa comunidade de Lost que participei do meu primeiro evento virtual.
Fui, como fake, convidada a um casamento - acho que da Kate com o Jack, já nem lembro direito - no scrapbook de alguém, celebrado pelo Mr. Eko.
Adorei!
Dos eventos losties, passamos todos aos gatherings de perfis.
A festa pela festa.
Lembro que numa dessas festas virtuais tive a honra de ser DJ.
Que emoção vendo todo mundo dançar virtualmente minhas músicas. Rs.
Numa outra festa, alguém tirou a roupa e começou a dançar em cima da mesa.
E em outra, foi uma Claire fake quem lá pelas duas e tantas da manhã começou a transar com alguém [seria Jack?] no meio da festa, na frente de todo mundo.
Bom, aí eu sabia - risos - era a primeira vez que eu via alguém fazendo sexo virtual num scrapbook.
Devo essa também a Lost :)

Lost me levou a muitos outros lugares.
Para ver as entrevistas ou fotos dos atores passei a ler várias revistas, entre elas, as especiais dedicadas exclusivamente às temporadas de seriados.
Também passei a catar na web links de vários talk-shows.
E assim ia conhecendo outros tipos de programas, publicações, outras visões editoriais, universos que antes eu não conhecia.
Por causa de Lost passei a seguir, religiosamente, os colunistas da TV americana.
Onde quer que eles estivessem: revistas, web ou TV.
@MichaelAusiello, @KristinDSantos, @EWDocJensen.
E meu ídolo Stephen King.
Era uma honra participar da mesma ignorância que ele, também fã da série.
E que honra ter uma pergunta respondida live no chat da @KristinDSantos, do E!, na época em que ela nem era 'Santos', sobrenome adquirido do marido brasileiro, e botava umas frases em português tosco para os leitores brazucas.
Pois é.
Foi graças a Lost que eu comecei a participar de chats internacionais.
Eu ainda não sabia mas o mundo tinha ficado muito mais próximo - flat & crowded é verdade - mas próximo.

Sim, é claro que eu via séries antes de Lost.
Sempre gostei.
Como para muita gente, foi a evolução natural após os desenhos animados.
Sou cria de tanta coisa que nem consigo enumerar.
Lassie e Flipper eram séries?
Ísis, Mulher Maravilha, Mulher Biônica, O Homem de Seis Milhões de Dólares [isso ainda é dinheiro hoje? rs], O Homem do Fundo do Mar? Eram séries também?
Eu não lembro se as histórias tinham continuidade.
Lembro da solidão do Incrível Hulk, da melancolia dos The Waltons, da histrionia do Batman, e dos bonitões por quem eu, moleca, suspirava, Os Dukes de Hazzard, Chips, Hawaii 5-0.
É tanta coisa que devo estar esquecendo várias.
Quem lembrar de séries dessa época, please, posta nos comentários.
Time-traveller?
É claro que eu era fã de Túnel do Tempo, assim como de Terra de Gigantes, Planeta dos Macacos e do impagável Dr. Smith, de Perdidos no Espaço.
E se tem um seriado que marcou minha infância, foi Star Trek, Jornada nas Estrelas, a série que me levava 'audaciosamente aonde nenhum homem jamais havia estado'.
Mas todos esses seriados são de uma linha diferente de séries - linha essa que existe até hoje.
São não-lineares.
As histórias são fechadas em si por episódio e não faz muita diferença se você não vir na ordem em que eles são exibidos.

Acho que a primeira série a que eu assisti em que era importante 'ver na ordem certa' foi Dallas.
Posso estar enganada, mas minha memória obtusa me diz que sim.
Depois lembro de Barrados no Baile.
As aventuras dos ricos de Beverly Hills me empolgavam [ao mesmo tempo em que eu rolava de rir com os disparates não-lineares de Alf - o ET Teimoso].
Também fui fã de Miami Vice.
Lembro que morava nos EUA, na Califórnia, quando lançaram Os Simpsons, em dezembro de 1989.
A gente não saía de casa domingo à noite para ver.
Mas se perdesse um, tudo bem, tinha um novo Homer engraçado para ver no domingo seguinte.
Nessa mesma época, fim dos anos 80/início dos anos 90, me encantei com The Cosby Show.
Adorava.
E concordo com alguém do The New York Times que escreveu que se hoje Obama é presidente, ele deve isso - em parte - a Bill Cosby.
Também acho.

E assim fui me relacionando com as séries.
Twin Peaks, por exemplo, - um dos primeiros grandes fenômenos da cultura televisiva que convencionamos chamar de pop - não me pegou.
Não me interessei por aquelas personagens sombrias, esquisitas, escatológicas, tonitruantes.
O universo freak de David Lynch nunca me seduziu.
Também nunca me encantei com o humor ácido e corrosivo [so new yorker] - que tanto amo - de Seinfeld. [não é uma contradição alguém amar tanto NY e nunca ter visto Seinfeld? rs].
Assisti a um pouco de Sex & The City e Sopranos porque morava em NY e comentar os episódios fazia parte do dia-a-dia da cidade. Rs.
Nunca assisti a um episódio inteiro de Arquivo X.
Mas o porquê de eu estar enumerando todo esse meu relacionamento aleatório com as séries é que fui dormir após terminar de ver Lost com exatamente a mesma pergunta que me fiz quando acordei no dia seguinte após ver os quatro primeiros episódios:
- Por que esse seriado me atrai tanto?

Seis/cinco anos depois, acho que finalmente consigo responder a essa pergunta.
É que o mundo mudou muito nos anos 2000.
E Lost foi um companheiro e tanto das minhas mudanças nele.
Se hoje sou muito mais complacente com as barbaridades ditas no Twitter - rs - é porque atravessei a agressividade das discussões nas comunidades intolerantes - ou não - de Lost.
Graças a Lost me conectei aos fóruns mundiais, aos chats, a postar comentários, a conversar com quem nunca encontrei.
Fiz amigos, descobri livros, os podcasts, vi nascer blogs, os webisodes, me enfronhei na tecnologia, fui fake, fui real, reli Alice, mergulhei em Battlestar Galactica, discuti pirataria, varei madrugadas, descobri o megaupload, o TVU player, dei xiliques com as travadas do Justin.Tv, passei batida pelos easter eggs, mas procurei na Wikipedia cada citação.
E a cada vez que eu procurava algo que não conhecia, era uma viagem a algum lugar 'onde audaciosamente eu nunca havia estado'.
Com Lost aprendi, quase sem perceber, o que era sharing.
Compartilhar.
A informação, o torrent, a legenda, a piada sem graça, a dúvida, a raiva do episódio idiota, os spoilers, o xingamento ao roteirista, à emissora e o apedrejamento ao tradutor.
Com Lost fui global na última instância que uma pessoa pode ser sozinha no seu laptop.
Pois é.
Quem diria.
Uma ilha foi o que me levou ao lugar que 'audaciosamente eu jamais havia estado', a World Wide Web.
Uma rede mundial de pessoas.

Ah, sim, o que eu achei do fim de Lost?
Gostei.
Acho que qualquer que fosse o final eu iria gostar.
Como disse o @Alelex88 - autor de zilhões de brinkstweets por minuto - para quem estava online, domingo à noite, reclamando do final de Lost no Twitter:
O IMPORTANTE É A JORNADA [assim em capsloka mesmo. rs.].
Pra mim Lost foi isso.
Não me importa o que era, o que não foi, o que deixou de ser. [pra ser sincera odiei um casalzinho feito de qualquer jeito lá no final. rs.]
O importante foi o caminho.
E eu adorei.

6 comentários:

Lici disse...

"A informação, o torrent, a legenda, a piada sem graça, a dúvida, a raiva do episódio idiota, os spoilers, o xingamento ao roteirista, à emissora e o apedrejamento ao tradutor."

AMO! AMO! AMO! LMAO
isso é muito bom, I know.
Me diverti muito com seu texto.
nem preciso dizer que me encontrei horrores, né? LOL

ai eu te pergunto: existe vida após o fim da "NOSSA" série? #temohorrores

Guta Nascimento disse...

sim.
acho que existe.
minha fé é que sobrevivi ao fim de Battlestar Galactica.
penso que se hoje vivo sem BSG vou aprender a viver sem Lost.
acho :)

Antenor Thomé disse...

Guta,

Sem palavras sobre seu relato!!! Sensacional... passei por muitas coisas que passou, senti outras tantas também e Lost também mudou minha forma de enxergar a produção audiovisual que tanto estávamos acostumados.
Muito bom seu texto e com certeza a jornada foi muito intensa e proveitosa.

Bjos
Namastê

Guta Nascimento disse...

@antena pra muita gente não deve ter sido Lost, mas pra mim foi Lost quem me 'abriu os olhos' [ui.infame] para a RevWeb. sou muito fã.

Leila disse...

Eu gostava de Lost porque era uma experiencia unica de televisao. Voce podia contar com uma hora de surpresas, sobressaltos, emocao e questionamento. No dia seguinte voce ia pra web digerir e discutir o capitulo com outros fas.

A final teve um impacto emocional tao grande que levei o dia seguinte inteiro pensando no episodio. Lindo.

Guta Nascimento disse...

@Lella eu também acho que vou ficar bastante tempo pensando no fim. eu nunca revi nenhum episódio. mas hoje, pela primeira vez, acho que vou rever o fim de lost no cabo. :)