sábado, 25 de outubro de 2008

Ai, o Rio

Uma semana privilegiada.
Duas cidades lindas.
Na quarta-feira corria eu pelo Central Park, em NY.
Neste sábado, estando no Rio, pensei, vou correr na Lagoa!
Tudo lindo.
O Rio é lindo.
A Lagoa é linda.
A vista é linda.
Tirando a poluição e o mau-cheiro permanente até que tudo estava muito lindo.
E lá ia eu me sentindo uma pessoa de sorte.
Correr em duas cidades lindas, Reservoir numa, vista para o Cristo na outra.
Até aparecer a diferença.
Após uns 40 minutos de corrida vendo coisas lindas, quiosques lindos, cariocas lindos, etc, sou surpreendida por alguém agarrando meu braço.
Era uma moça jovem, muito pálida, com a voz muito, muito trêmula.
'Moça, pára, pára, não vai não, volta, acabei de ser assaltada, ali na frente tem 4 pivetes assaltando todo mundo'.
Tremia a moça, uma menina na casa dos seus 20 anos.
Dei meia-volta imediata e me ofereci para ir com ela atrás de algum policial.
Aproveitamos e fomos avisando a todas as pessoas que corriam e/ou andavam em direção ao bando.
Só quem passava de bicicleta estava livre de ser atacado.
A moça que me abordou estava de trança.
Pois os pivetes puxaram o cabelo dela, avançaram e a empurraram.
Só pararam quando conseguiram arrancar dela o celular.
Nervosa, a moça ainda dava graças a Deus.
'Pelo menos não me bateram, nem me socaram' [pelo que entendi isso é comum].
Também agradecia o fato deles não terem achado a chave do carro que ela escondia na cintura, presa ao legging.
'Podiam fazer sequestro-relâmpago, né?', perguntava ela.
Sim, podiam.
Emprestei meu celular e ela imediatamente tentou ligar para casa para avisar aos pais que se alguém telefonasse naquele esquema de falso sequestro, era mentira.
Achamos, na porta de um clube próximo, um vigia daqueles que usam colete em que se lê: SEGURANÇA.
Avisamos que a menos de 100m a mini-gangue continuava atacando.
Pois ele nem se levantou da cadeira onde estava.
Apontou para o lado e disse.
'Ali, às vezes, tem polícia'.
Fomos até ali.
Não tinha polícia nenhuma.
Nervosa, a moça nem pensou em fazer B.O. na delegacia.
Se ela tivesse ido, eu iria junto para dar uma força.
Mas ela só queria chegar em casa e tentar parar de tremer.
Sem ter como seguir adiante, e muito longe para voltar por onde vinha, desanimei.
Não faz sentido ficar sendo socada por pivetes.
Entrei num táxi e fui para casa.
Com a seguinte decisão.
O cidadão tem direito de correr com celular, polar, ipod, iphone, carteira, chave de carro, de casa e anel de brilhante, bem, se o tiver, é claro.
Doente é a sociedade que acha que a culpa de quem é assaltado está no fato de andar na rua de celular.
O nome disso é outra coisa.
Quem não tiver coragem de dizer em voz alta o que isso significa, favor voltar para o Mundo Encantado onde vive.
A moça tem o direito de andar na Lagoa como ela quiser.
Eu também.
Você também.
Agora se para andar na linda Lagoa Rodrigo de Freitas eu tiver que botar um tênis velho [porque o novo será arrancado do meu pé a chute], tirar relógio, anel, iphone, brinco, ir sem dinheiro nem nada que possa ser roubado, eu passo.
Continuarei a correr na esteira da sala de ginástica do meu prédio.
Porque se o preço da linda Lagoa for esse, eu não pago.
Quando tiver saudades, vejo as fotos do cartão-postal.
É tão lindo, não é mesmo?

3 comentários:

Sérgio Dávila disse...

Vale com um dia de atraso? PARABÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉNS!!!!!!!!
centi mille bacci
sd

Renata Salles disse...

texto lindo... poesia pura!

Renata Salles disse...

complemento: O Rio sempre rende boas histórias...