quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Internet, a Nextel, o B.O. e a Insensatez

Hoje foi dia de ir à delegacia.
Explico.
Tive um Nextel furtado.
Tem seguro.
Vão me dar outro de graça.
Basta que eu apresente alguns dados e o B.O. - apelido carinhoso do Boletim de Ocorrência.
Serve o da internet ?
Não, não serve, explica o funcionário da empresa.
Mas por que ?
Porque não serve, tem que ser o original, o da delegacia.
Mas qual a diferença ?
O da internet também tem numeração, protocolo, um escrivão por trás da sua face digital.
Não adianta.
Original, pra Nextel, só o da delegacia.

Na delegacia, o escrivão de atendimento pergunta.
Qual o caso ?
Furtaram meu Nextel. Preciso de um B.O.
Aí começa o Cirque du Non Sense.
Sou olhada de alto a baixo, como se fosse um Brotinho de Neanderthal.
E por que não faz na internet, me pergunta ele com desdém, como se estivesse falando com algum ser proterozóico.
Porque a Nextel só aceita B.O. original.
Internet é original, responde o cidadão, agora já irritado de lidar com gente tão tacanha como eu.
Vai ficar aqui numa fila de duas horas por que ?
Eu S-E-I, digo com meu ar de madame do Cansei.
Dá pro senhor dizer isso à Nextel ?

Uma hora e meia de fila.
À minha frente, um pobre motoboy que ainda paga a prestação da moto roubada há poucas horas, e mais à frente 2 PMs pra registrar a colisão em que um motoboy bateu na viatura deles (!!!) e fugiu.
Tudo isso porque a Nextel não acredita em B.O.s de internet.

A dúvida é.
Se a Nextel não acredita, quem acredita ?
A Nextel é inteligente e os outros são burros ?
Se ninguém acredita, pra que existe o serviço ?
Pra fingirmos que somos avançados digitalmente ?
Qual o sentido de um digital que não é considerado original ?
Onde está a loucura ?

E não pára por aí.
Sentada à frente do escrivão vou respondendo.
Nome, endereço, telefone, filiação, número do RG.
Tudo respondido, sai o B.O. impresso em pouquíssimos segundos.
Um detalhe.
Não apresentei documento algum.
Ou sou muito fina e o escrivão me achou uma ótima pessoa, ou estamos todos na Terra do Faz-de-Conta.
Porque se eu tivesse respondido que meu nome era Karina Chaves, amiga querida de Porto Alegre, dado o endereço da ex-prefeita Martha Suplicy, o telefone do Vesgo, e dito que sou filha de Paris Madureira Hilton com Marcello Anthony, assim teria sido registrado.
Como alguém faz um B.O. e não checa nada ?
E no boletim ainda está escrito, conforme documento apresentado.
Ra ra.
Mas é pra rir ou pra chorar ?
Acho que nem uma coisa nem outra.
Só agora, no fim do dia, entendi tudo.
No País Em Que Escrivão É Crédulo, A Nextel Não Acredita Na Internet.

Um comentário:

Adriana disse...

Oi, Guta.

Muito legal o blog. Gostei de tudo. Resolvi comentar este post porque passei por uma situação parecida com essa sua, no ano passado.
O Detran do Rio não queria aceitar o B.O. pela Internet do roubo da minha carteira. Os funcionários de lá nem sabiam da existência do serviço, prestado pelo mesmo governo do qual fazem parte.
Beijos,
Ana