sábado, 20 de outubro de 2007

Mostra IV - Mais Que Simpatia

É 5 de junho de 1968.
Você está dentro do estúdio mais famoso de Londres.
Lá dentro, à sua frente, uma banda começa a gravar uma canção.
Você filma.
Naquele momento nem você, nem a banda, nem ninguém, tem como saber.
Mas aquela música, escolhida aleatoriamente para o filme, vai entrar para a história.
A banda se tornará imortal.
E o filme, um clássico.

E como é que todos conseguiram vencer o tempo, assim, dessa maneira ?
Fácil.
Quando a música é Sympathy For The Devil.
A banda, os Rolling Stones.
E você, Jean Luc Godard.

Assistir ao Rolling Stones - Sympathy For The Devil é um privilégio.
Por vários motivos.
Primeiro, porque 40 anos depois a música ainda está viva.
A banda ainda leva 1 milhão de pessoas a um show.
E o filme ainda é um grande filme.

Tamanha imortalidade tem várias razões.
Os Stones gravaram Sympathy For The Devil em 5 sessões.
As duas primeiras em 5 & 6 de junho de 1968.
Os overdubs finais em 8, 9 e 10 de junho.
Godard acompanhou todas.
Sendo assim, lá está registrado em câmera o momento em que a canção foi eternizada.
Só isso já valeria muito.
Não tem preço vê-los gravando.
E ainda com Brian Jones.

A câmera de Godard é única.
E única aqui quer dizer única mesmo.
Em todas as tomadas não há cortes.
É uma câmera sozinha passeando pelo estúdio indo de um para um.
E aí, há de se convir, das duas uma.
Ou você sabe muito bem o que quer.
Ou não faz idéia e passeia aleatoriamente com ela.
Porque se você fosse Godard e tivesse à sua frente Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Bill Wyman e Brian Jones, o que você faria ?
Plano aberto o tempo todo ?
Duvido.
Nem você, nem Godard.
Fechar em quem ?
Em que momento ?
Que movimentos ?
Registrar o quê e abandonar quais ?
Eu, sinceramente, não queria ser Jean Luc ali naquela hora.
Porque tudo, tudo, absolutamente tudo, é sensacional.
E filmar com apenas uma câmera é corajoso pacas.

Ver qualquer músico criar já é mesmerizante.
Ver os Stones, então.
Em 68 eles já eram grandes.
O estúdio, o Olympic, 117 Church Road, no subúrbio de Barnes, em Londres, um templo.
Lá, eles já haviam gravado os dois álbuns anteriores.
Naquele momento gravavam o histórico Beggars Banquet.
Só para termos uma idéia, no mesmo ano, Jimi Hendrix e Led Zeppelin também gravariam lá algumas canções que amamos até hoje.

Além dos Five Fabs, participam ainda da sua gravação Nicky Hopkins ao piano, Rocky Dijon nas congas e Bill Wyman nas maracas.
E eu insisto na pergunta.
O que você faz com a sua câmera ?
Fica em Mick, testemunhando como ele magistralmente, com sensibilidade aguda, inerente, rege a alquimia musical dos companheiros ?
Fica em Keith, o gigante de cigarro eterno na boca, o gênio que só se expressa através da guitarra ?
Fica em Charlie, só pra flagrar roubados momentos de alguma expressão ?
E Brian Jones, o que fazer com o menino drogado no mundo da lua ?

Eu, confesso publicamente, nunca fui fã de Godard.
Não por nada específico, imagino que ele seja genial mesmo.
Mas sempre tive dificuldade com filmes herméticos.
Dele, só havia assistido a Je Vous Salue, Marie.
Mais por rebeldia, no campus da UFRJ, em 85, para desafiar a proibição, do que por qualquer outro motivo.
Resultado, lembro do dia, da faculdade em ebulição, da sessão abarrotada, do Jornal do Brasil fazendo matéria.
Mas do filme que é bom mesmo, nada.
Não lembro de nenhum take, nenhuma cena, ou seja, nada ficou registrado na alma.

Mas para este filme eu tiro o chapéu.
Sympathy intercala as sessões em estúdio com as idiossincrasias de Godard.
Entre as músicas uns esquetes longos com as discussões da época.
O feminismo, o Vietnã, os Panteras Negras, o ridículo da Guerra Fria, o intelectualismo, a democracia, o maoísmo e o comunismo.
Essa parte, confesso, não me empolgou.
É Godard demais pra minha cabeça.
Mas não deixa de ser interessante.
No mínimo ver a cabeça de um francês filmando ingleses na crítica aos Black Panthers já vale a viagem.

Mas o que eu não conseguia parar de pensar era nos Stones.
Mais do que o nascimento de um clássico, Godard filmou a alma de uma banda, quando ela é, primordialmente, uma banda.
Na hora da gravação.
Quando o filme começa, surpreende ver Mick Jagger em ação.
Tudo te induz a achar que nos vai ser revelado o seu lado boss.
Mas a câmera vai passeando.
Vai pra lá, vem pra cá, dá a volta e traz à película uma química mais complexa do que sempre imaginamos.
Vemos que, muito mais que chefe, ele é o úncio elemento de liga possível entre metais tão instáveis.
É que, no filme, em comum os Stones só têm uma coisa.
Falam pouco.
São poucas as palavras ouvidas entre eles.
O que os une é a música.
E Mick, muito mais sensível do que jamais imaginei, tem um talento incrível para isso.
Consegue administrar a banda na veia.
É ele quem traduz a vontade e os desejos de Keith.
Nem que seja para trocar os lendários amplificadores Vox.
É ele a voz que ergue as tensões naturais de sempre entre banda e produtor.
Mas o interessante é que nada disso é óbvio.
Tudo flui muito natural.
Porque química não se inventa.
Ou ela já existe ou não há história.
E como registrar isso ?
Eu, insisto, não sei o que faria.
Porque quando a câmera vai saindo das costas do Brian Jones, por exemplo, você implora para que ela fique ali um pouquinho mais e a gente possa ver um pouquinho mais dessa cena tão insólita.
Mas aí ela chega no quadril do Keith dando o groove da melodia.
No tamborilar dos dedos de Mick.
É riqueza demais.
O dedilhar lustroso de Hopkins ao piano, a Gibson Les Paul 1957 de Keith, os bongôs.
Sem falar nas roupas.
Que são um filme à parte.
Dá vontade de ver tudo de novo só para focar o olhar nelas.
Estilo, não adianta, não se compra.
Ou se tem ou fica para a próxima.
E os Stones têm.
Uma das cenas, que na verdade foi gravada apenas para o filme, é uma aula de antropologia.
É a da gravação dos backing vocals da música.
Mick de um lado de um biombo fazendo o leading vocal.
Do outro uma rodinha com a banda, o produtor Jimmy Miller e as gurias, Mariane Faithfull e Anita Pallenberg, fazendo o 'tchu ru ru, tchu ru ru'.
A gente não consegue desviar o olhar das roupas.
As meninas estilosas, chapéu absurdo, a calça pra lá de apertada de Keith, as mangas, as cores, tudo é incrível.
Se você é estudante de moda, professor de moda, produtor de moda, fã de moda, tem qualquer interesse por moda, não perca esse filme.
São cem minutos de aula.
De comportamento e história.

Por isso tudo e muito mais - vocês não imaginam o tempo em que eu poderia ficar aqui falando dos detalhes registrados na câmera de Godard - é que eu termino convicta.
Vários elementos podem contribuir para uma música se tornar inesquecível.
Mas, Sympathy for the Devil, eu aposto.
Entrou para a história porque só os Stones podem tocar e ser verdadeiros quando cantam
... Please allow me to introduce myself, I'm a man of wealth and taste ...

2 comentários:

Carol Domingues disse...

Eu amei esse filme, pqp!

mutantismos disse...

pô, guta, que texto! maravilha!
bjos.